O urso-pardo-cantábrico (Ursus arctos arctos) é a subespécie de urso-pardo que habita a cordilheira cantábrica, entre as Astúrias, León, Cantábria e Galiza. Esteve quase extinto nos anos 80 (menos de 70 exemplares) e hoje supera os 350 indivíduos graças a um programa de conservação de quatro décadas. É o símbolo do cercado de ursos de Proaza e da Senda del Oso.

Este guia cobre o essencial sobre a espécie: o que a distingue dos restantes ursos, onde vive, o que come, como se recuperou e como se comporta com os humanos.

O que é e o que a distingue

Espécie: Ursus arctos (urso-pardo, o mais difundido no hemisfério norte). Subespécie: Ursus arctos arctos — a subespécie europeia, presente na Europa e em partes da Ásia. População cantábrica: uma das duas populações isoladas de urso-pardo em Espanha (a outra é a pirenaica, muito mais reduzida).

Dados físicos:

  • Peso: fêmeas 85-180 kg, machos 100-260 kg.
  • Altura a quatro patas: 70-100 cm ao dorso.
  • Altura em pé: até 1,90 m.
  • Esperança de vida: 20-30 anos em liberdade, até 35 em semi-cativeiro (como o cercado de Proaza).

Diferenças com outros ursos:

  • É mais pequeno do que o grizzly norte-americano (mesma espécie, subespécie diferente).
  • Não é o urso-polar (espécie diferente, Ursus maritimus).
  • A população cantábrica está isolada geneticamente da pirenaica há séculos.

Onde vive o urso cantábrico

Habitat principal: florestas da cordilheira cantábrica, em altitudes entre 500 e 2.000 m. Prefere:

  • Bosques de faia, carvalho e castanheiro.
  • Zonas com abundante fruto florestal (bolotas, castanhas, mirtilos, abrunhos).
  • Vales com pouca presença humana.

Províncias com presença atual:

  • Astúrias (maior concentração): concelhos de Somiedo, Cangas del Narcea, Ibias, Teverga, Quirós.
  • León: Babia, Laciana, Riaño.
  • Cantábria: zona ocidental.
  • Galiza (Lugo): Ancares, áreas limítrofes com León.

A zona de maior densidade: Parque Natural de Somiedo e Muniellos.

O urso cantábrico é omnívoro e oportunista. Contra a imagem clássica do “caçador agressivo”, 80% da sua dieta é vegetal:

  • Frutos florestais: bolotas, castanhas, nozes, mirtilos, amoras, abrunhos, maçãs silvestres.
  • Ervas e raízes: especialmente na primavera.
  • Mel selvagem: quando o encontra.
  • Insetos: larvas, formigas, abelhas.
  • Pequenos mamíferos e carcaças: ocasional, complementar.
  • Excecionalmente: caça crias de veado ou javali, muito raramente gado (casos muito isolados).

Quando come mais: final de verão e outono — hiperfagia: acumula reservas para a letargia invernal.

Comportamento e ciclo anual

Primavera (março-maio): sai da letargia. As ursas com crias saem em último. Procura erva fresca, carcaças, insetos.

Verão (junho-agosto): atividade máxima. Desloca-se por territórios amplos. Cria e brinca com os ursinhos.

Outono (setembro-novembro): hiperfagia. Alimentação intensiva para acumular gordura.

Inverno (dezembro-fevereiro): letargia (não hibernação técnica — pode sair em dias amenos). As ursas parem as crias dentro do covil nesta época.

Territorialidade: os machos ocupam territórios de 150-200 km², as fêmeas menos.

Como a espécie se recuperou (1980-hoje)

1980: o urso cantábrico estava à beira da extinção. Menos de 70 exemplares repartidos por 2-3 núcleos isolados. Causas do declínio:

  • Caça furtiva (iscos envenenados, armadilhas).
  • Perda de habitat (cortes florestais, estradas).
  • Isolamento genético (populações demasiado pequenas).

1990-2000: criação da Fundação Urso-Pardo (1992), declaração da espécie em perigo crítico de extinção, reforço do SEPRONA, luta ativa contra o furtivismo. Nas Astúrias é criada a Fundação Urso das Astúrias, gestora do cercado de Fernanchín (onde viveram Paca e Tola).

2000-2020: a população começa a crescer. Em 2020 estima-se ultrapassar os 250 exemplares.

Hoje (2026): +350 ursos na cordilheira cantábrica. A espécie continua vulnerável mas longe do abismo de 1980.

Ameaças atuais

Embora tenha melhorado muito, o urso cantábrico continua a enfrentar riscos:

  • Furtivismo residual: iscos envenenados e armadilhas, embora menos do que antes.
  • Atropelamentos: em estradas que cruzam o seu território. Vários casos por ano.
  • Perda de habitat: cortes, projetos de energia eólica mal localizados.
  • Fragmentação: as populações continuam algo isoladas entre si.
  • Alterações climáticas: afetam a disponibilidade de alimento florestal.

A Fundação Urso-Pardo e a Fundação Urso das Astúrias continuam a trabalhar ativamente nestes frentes.

É perigoso para os humanos?

Não é agressivo por natureza. Foge do contacto humano e quase sempre se afasta se te detetar antes de tu o detetares.

Situações de risco (muito pouco prováveis):

  • Encontro surpresa com ursa e crias.
  • Urso ferido ou doente encurralado.
  • Animal alimentado por humanos que perdeu o medo natural.

Regras em zonas de ursos:

  • Não sair dos caminhos sinalizados.
  • Fazer barulho (falar, música ou chocalhos) para avisar.
  • Se vires um urso à distância: distância mínima 200 m, retirar-te lentamente.
  • Nunca correr (ativa o instinto de perseguição).
  • Nunca aproximar-te de crias (a mãe está sempre por perto).

Onde o ver

Em liberdade:

Em semi-cativeiro:

  • Cercado de Fernanchín (Proaza): onde vive Molina (resgatada em 2013). Acesso livre desde o miradouro, a pé desde a Senda del Oso, gratuito. Faz parte da história de Paca, Tola e Molina.

Por que importa este post

O urso-pardo-cantábrico não é apenas mais uma curiosidade zoológica. É um dos poucos êxitos de conservação da fauna europeia das últimas décadas: uma espécie que estava a 70 exemplares de desaparecer e que hoje se move por mais de 5.000 km² de cordilheira. Pedalar pela Senda del Oso é atravessar o coração desse território recuperado. Cada bicicleta alugada em Entrago é um visitante que entende — ou aprende — por que este animal merece continuar a existir.

Se vens à senda, parar no cercado de Fernanchín para ver Molina são 30 minutos que mudam a perspetiva do dia.